Santíssima Trindade
Seria possível ao homem conhecer os mistérios da Santíssima Trindade? Onde se encontra tal mistério?

Ao começarmos com piedade um ato qualquer da vida cotidiana ou uma oração, costumamos dizer: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.
A mesma invocação dá início à Santa Missa, que prossegue com uma saudação do sacerdote, tal como: “A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco”.
O mistério da Santíssima Trindade encontra-se presente em nosso dia a dia, todo o tempo.
Sabemos pela doutrina da Igreja que há três Pessoas Divinas, mas um só Deus. Entretanto, a inteligência humana não abarca esta realidade sobrenatural, entre várias razões por estarmos habituados a tratar com os outros homens, meras criaturas de nossa natureza racional, na qual se confundem numa unidade o ser e a pessoa.
Conhecer a Trindade só é possível pela Revelação
É a fé que nos permite aceitar esta verdade. De tal forma que, se o Filho de Deus não a tivesse revelado, impossível seria deduzi-la.
O Antigo Testamento não oferece elementos para discernir com precisão a existência da Trindade, mas apenas vestígios e insinuações muito tênues que a fazem, de certa forma, ser pressentida.
Por exemplo, ao narrar a obra do sexto dia, o Autor Sagrado utiliza o verbo no plural, como se a determinação fosse tomada por várias pessoas: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26).
Este e outros textos bíblicos análogos (cf. Gn 3, 22; 11, 7) podem ser considerados sinais da Trindade, embora não sejam explícitos e categóricos.
Os Livros Sapienciais contêm alusões à geração eterna do Verbo pelo Pai, quando a Sabedoria fala de Si mesma:
O Senhor Me criou, como primícia de suas obras, desde o princípio, antes do começo da terra. Desde a eternidade fui formada, antes de suas obras nos tempos antigos. Ainda não havia abismos quando fui concebida (Pr 8, 22-24).
O Senhor Me criou, como primícia de suas obras, desde o princípio, antes do começo da terra. Desde a eternidade fui formada, antes de suas obras nos tempos antigos. Ainda não havia abismos quando fui concebida (Pr 8, 22-24).
E, na visão de Isaías, os Serafins proclamam: “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus do universo!” (Is 6, 3), repetindo o título para honrar as três Pessoas.
A razão humana, contudo, nunca teria suficiente capacidade para chegar a tal conclusão e deduzir tais aplicações, pois o sentido da Escritura só se tornou claro depois da Encarnação, como está na Oração do Dia:
Ó Deus, nosso Pai, enviando ao mundo a Palavra da verdade e o Espírito santificador, revelastes o vosso inefável mistério. Fazei que, professando a verdadeira fé, reconheçamos a glória da Trindade e adoremos a Unidade onipotente.
Ó Deus, nosso Pai, enviando ao mundo a Palavra da verdade e o Espírito santificador, revelastes o vosso inefável mistério. Fazei que, professando a verdadeira fé, reconheçamos a glória da Trindade e adoremos a Unidade onipotente.
Jesus é quem revela a existência do Espírito Santo
De fato, é o Filho de Deus quem anuncia a existência das outras Pessoas e Ele próprio declara: “O Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14, 26).
Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir e anunciar-vos-á as coisas que virão (Jo 16, 12-13).
Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir e anunciar-vos-á as coisas que virão (Jo 16, 12-13).
Foi, pois, a partir de Pentecostes que os Apóstolos foram ilustrados pelo Espírito Santo.
É Ele quem nos leva a compreender a verdade, ainda que de modo um tanto obscuro, às apalpadelas, como quando entramos num quarto sem luz e, impossibilitados de ver com nitidez, nos movemos com cuidado, tateando as paredes e os objetos, até adquirir uma vaga ideia do local.
Assim, também, a fé – um dom de Deus pelo qual assentimos às verdades sobrenaturais que nos são propostas – nos confere certa noção difusa a respeito das Pessoas da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo.
Afirma Santo Agostinho:
Para poder contemplar inefavelmente o que é inefável, é preciso purificar a mente.
Não sendo ainda dotados da visão [beatífica], somos nutridos pela fé e conduzidos através de caminhos acessíveis, a fim de nos tornarmos aptos e idôneos para a sua posse.
Para poder contemplar inefavelmente o que é inefável, é preciso purificar a mente.
Não sendo ainda dotados da visão [beatífica], somos nutridos pela fé e conduzidos através de caminhos acessíveis, a fim de nos tornarmos aptos e idôneos para a sua posse.
Com efeito, estamos neste mundo de passagem e rumamos para um convívio perene com a Trindade no Céu, onde veremos
a Verdade sem trabalho e gozaremos de sua claridade e certeza.
Não será necessário o raciocínio da alma, pois veremos intuitivamente […]. Ante o fulgor daquela luz, não haverá dúvidas.
a Verdade sem trabalho e gozaremos de sua claridade e certeza.
Não será necessário o raciocínio da alma, pois veremos intuitivamente […]. Ante o fulgor daquela luz, não haverá dúvidas.
No Evangelho contemplado pela Liturgia, Jesus, o Filho de Deus Encarnado, nos ensina que estamos aqui de passagem com vistas a um convívio eterno com a Santíssima Trindade.
Analisemos, pois, esta passagem tendo presente este altíssimo mistério de nossa fé.
Não basta a fé, é preciso dar testemunho
Crer significa traduzir para a própria vida aquilo em que se acreditou.
Indispensável é, pois, haver de nossa parte esta crença em Nosso Senhor Jesus Cristo, não de maneira etérea, mas de acordo com o momento histórico atual.
E, como ao longo dos séculos o mal se apresenta sob novos aspectos, temos a obrigação de manifestar a fé em Cristo de modo conveniente à situação em que vivemos.
Nos primeiros tempos do Cristianismo, os fiéis eram conduzidos pelo sopro do Espírito Santo, a ponto de estarem dispostos a entregar tudo quanto possuíam, como se narra nos Atos dos Apóstolos (cf. At 2, 44-46).
Diversa foi a época das perseguições, em que os cristãos, inebriados pela ideia da Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e abrasados de amor por Ele, enfrentavam a martírio e dominavam os instintos de sociabilidade e de conservação.
Na Idade Média, outra forma de adesão levou o homem a transformar a vida social em uma manifestação da Fé Católica.
A cada fase histórica, portanto, a fé produz novos e variados frutos de santidade, pois sem as obras ela é morta (cf. Tg 2, 17).
Participar já nesta vida do convívio da Santíssima Trindade
Também nós precisamos dar testemunho dessa virtude, adequando a Jesus Cristo nossas atitudes, mentalidade, inteligência, vontade, sensibilidade, enfim, tudo aquilo que somos e queremos ser.
Ao presenciarmos no mundo hodierno o abandono da fé e o quase completo desaparecimento do fermento evangélico nas relações humanas, cabe-nos alimentar uma vigorosa piedade eucarística e mariana, ao lado da fidelidade à Cátedra de Pedro, e buscarmos a sacralidade em todos os aspectos da existência.
Em suma, devemos conformar-nos ao Divino Mestre, a fim de participar, já nesta vida, do inefável convívio com as três Pessoas Divinas.
Este é o objetivo da Liturgia de hoje: estimular-nos a crescer na devoção à Santíssima Trindade e a corresponder ao seu inefável amor, realizando a vontade do Pai, caminhando nas pegadas do Filho e atendendo com docilidade às moções do Espírito Santo.
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